A escada

Chega! De degrau por degrau cansa, se a morte é o elevador para os que quase chegaram subindo, eu peço de joelhos, o quanto falta?

Não lembro quando foi que eu parei de olhar para baixo, mas recordo de ter estado lá, tenho a lembrança sofrida dos meus lapsos de gritos e euforia. Quantas vezes acreditei que conseguiria, quantas vezes duvidei, de degrau por degrau, isso humilha, pois nunca estou acima e a sensação é do começo do abismo. Deste lugar eu vi alguém lá em cima, dessa pessoa que veio a escada. De tanto me olhar, eu olhei de volta e olhar para trás sobrou a visão do vazio onde me acomodara, a visão do aconchego das rochas chocando meu ser no vislumbre da minha queda.

O fundo do abismo é o que sempre me esperou de verdade, nunca foi daquele que me olha, lá embaixo, sem saída alguma, consolou-me sem me fazer entender o porquê só se via luz acima. Porém chega, por que foste me olhar? Eu estava melhor sem o peso do meu corpo sendo o motivo do meu declínio. Porque meu corpo me condena, mostra o quanto sou fraco como o abismo que nunca se moveu. Eu sinto ser as rochas que anseiam o meu impacto, estou tão dure como elas. Chega! De degrau por degrau, meus músculos tremem, já não sei mais pisar!

Minhas mãos não se soltam, pois não raciocinam, estão mortas e frias. Minha mente ao contrário grita em desespero, pede para soltar, mas não consigo. Então, por favor, quanto mais falta para chegar?

"Só mais um degrau!", eu grito para mim mesme.

E não sinto o degrau, do tato, eu sinto algo familiar, mas nunca vindo de outro, quando segurei o degrau, eu senti uma mão.

Mesme: mesma/mesmo.

Dure: dura/duro.

Texto de Emanuel Tuê da Silva Silvano.