Antuê

Se eu sou capaz de sorrir quando fala comigo não é motivo de reconciliação, não há mais o nó da vida entre nós, muito menos o afago das dores compartilhadas. Se te respondo com educação é para certificar que o meu caráter não é como o seu. Que minha ferida não sangra como antes, tão pouco me preocupo com a infecção. Cuido hoje, o suficiente par retribuir com um sorriso verdadeiro o seu oi falso. A graça de habitar meu corpo foi perdoar o fardo que você carrega, porque é totalmente seu. O fato de apontar para mim não significa nada e eu não te culpo mais, pois já estive na pele do culpade e não me agradou o traje, mas não sou eu que preciso te ajudar a retirar essa roupa. Não sou que que darei outro manto, quando vi meu corpo despido, eu pude entender que não precisava me tapar.

Se eu escondo minhas genitais quando seus olhos se dirigem aos meus é para não criarmos confiança com a nossa natureza, pois somos da mesma espécie de raça diferente e do seu bando eu não pertenço. Da sua partilha eu não me alimento, mas oro por ti, porque eu tenho a cicatriz da sua companhia e não posso fazer nada além de orações de ajuda. Só não pense serem preces para que mude da água pro’ vinho, pois seriam rezas de vento, da ferida do meu peito, eu só peço que reconheça aos poucos o quanto suas palavras cortam mais do que curam e quem sabe assim, você possa aos poucos aprender com o silêncio o que eu também tive que aprender.

Não quero que se ofendas quando te corrijo ao me chamar de amigue. Você nunca prestou atenção no meu nome e amigues não são coisas passageiras. Vivendo como peregrine, pude entender que amizade não se faz de tempo, posso te conhecer vinte, dez ou cinco anos e esse acúmulo não significar nada. Afinal, só contamos os segundos, os poucos segundos que são ditos em nossos velórios. A palavra amizade está vinculada por momentos, você esteve presente quase todos os dias para que eu pudesse entender que nada se salvou. Precisei trocar cinco palavras com um estranho para ver sua preocupação comigo, ouvindo sem pensar em usar contra mim mais tarde. Para ti, me chamo Tuê, para os seus semelhantes sou quem se afastou. Para os meus, és alguém que me ensinou uma das chaves mais importantes da vida: não posso esperar do outro o que não faço para mim mesme.

Por causa disso, digo: Não!

Não me chame de amigue, não ofereça abraço, não me difame como ingrate, porque eu entendi tarde demais que esse vazio no estomago era fome de algo que você nunca pode oferecer, mas exigia que eu desse e da minha mesa há de ter alimento o suficiente para nós dois e se eu reparar que a fome não se faz presente, somente a gula. Farei questão de convidar para sair e na porta de entrada entregarei flores. Assim, sem dizer nada, poderá vê-las morrendo lentamente como a tua presença na minha vida, como por muito tempo me viu morrer e não fez nada. Agora faço com o tempo essa carta de adeus, pois vejo como é bom a cada dia ter uma experiência a menos com você.

Perceber estar prese no nó que demos me ensinou a fazer outro tipo de laço, pois não é a força que importa, porque no puxão se arrependa, a graça é quando se desfaz sozinho.

Culpade: culpado/culpada.
Amigue/Amigues: amigo/amigos // amiga/amigas.

Mesme: mesmo/mesmo.

Peregrine: peregrino/peregrina.

Ingrate: ingrato/ingrata.

Texto de Emanuel Tuê da Silva Silvano.