Daqui para frente digo calade

          Meu dom não é na voz, pouco sei e domino a minha dicção, rouca como de um fumante, bela demais para ser de canto, pois se canto desencanto, meu dever é outro. 
          A fala nunca me pertenceu, embora eu brinque com os ditos ainda silenciados, porque se falo é para dizer do silêncio, do oculto, daquilo que abandonamos. Se eu aprendi a falar foi para deixar de gritar, para deixar no passado a angustia do meu corpo incontrolável. Ainda permito sua ação através da dança, do toque. De socos e chutes, esses não me pertencem, sempre gostei de bater com palavras.
          Sentir o arrepio de tocar meus hematomas, sentir o embrulho do estomago, o gosto amargo da lágrima, ver o vermelho do sangue. Qual o prazer daqueles que se silenciaram ?
          Porque é deles que vem meu dom, pouco sei do poder da fala, tão menos a domino, mas do silêncio te torno eu, te transbordo em mim sem precisar dizer seu nome, sem precisar saber seu nome.
          No silêncio que habitamos e de lá que encontro você calado, mas é isso que eu não sei fazer, é nele que meu grito ecoa sem te fazer tampar os ouvidos, meu dom está na escrita que te ensina sair do silêncio e vir pro’ barulho, o barulho que só consigo fazer calade.

Abertura do livro Para Quem Escrevo.

De Emanuel Tuê da Silva Silvano,

calade: calado/calada.