Mate-me

Ouça-me com atenção, eu quero que me mate. Não ao pé da letra, mas que possa matar quem eu sou, pois morri ao atravessar a porta como renasci com o nosso oi.

Quero que morra em mim o que acreditei ser você semana passada. O que acharei ser tu depois do nosso tchau.

Quero que possamos morrer um para o outro, não através do esquecimento, mas pelo excesso de sua presença na dedução de como te encontrarei depois do nosso até logo. Quero morrer, sem velório, na certeza que no depois, tu possa me ver nascer em seu olhar e no parto que foi nosso reencontro. Quero que tu morras, para eu poder te colorir ao revê-lo e os ditos com raivas serem só raiva e não a nossa verdade. Quero a morte no nosso relacionamento para que sejamos vida nas saudações que faltaram na nossa última despedida.

Quero morto, não de corpo ou espírito e sim de estado. Estado presente, estado ausente e que nas memórias o seu espírito possa ser fogo e o seu corpo brasa, capaz de me queimar sem queimadura pelo nosso ardor.

Digo isto, porque os dois precisam morrer, pois sem a morte não me agrada lembrar que um dia tivemos o tempo a nosso favor.

Nosso... Meu, tu, vosso e se por desventura eu morrer antes do adeus. Que não reprima ao lembrar-se de mim e se acaso chorar. Saiba que meu corpo morreu como já sabíamos que aconteceria, mas meu espírito estará ali para secar suas lágrimas e estarei do outro lado te esperando para finalmente saber quem és e assim, quem sabe, possamos ser enfim estado onipresente. 

 

De Emanuel Tuê da Silva Silvano.