Não sei se foi rosbife ou salada

       Notará seu cansaço, o mesmo vivido ontem, uma vaga sensação de cansaço. Acenderá um cigarro, pois a cabeça incomodava, martelava-lhe sem prego e sem palavras. Às vezes um parafuso surgia com uma expressão sofrida, dolorosa de contrair os sobrancelhas. Sentirá a barriga cheia, tentará lembrar o que comeu. Nenhuma lembrança, pensará mais, na dúvida se comeu arroz ou se teria sido lentinha no lugar.

          Recordará por deslize da comida de sua avó. Lembrou que havia guardado o caderninho de receitas na segunda gaveta do armário da cozinha. O que lhe doía não era o caderninho guardado, nem o bolo de chocolate que sua avó fazia, o que lhe doía era não ter tido tempo ou ter tido tempo o suficiente para não passar com ela.

          Nos últimos anos mal a visitará, em compensação não há como contar ás vezes que virá Miguel e Fernanda. O que teria comido no meio dia? Deve ter sido lasanha, mas lembra de ter visto ainda no freezer, ou não teria visto hoje? Notará o cigarro apagado.

          Seu destino foi acender novamente, poupando de pensar na comida, pensará na última vez que viu seus dois amigues. Acreditava ter sido no domingo, mas a incerteza lhe levava a pensar na possibilidade de ter sido sábado. Que conversa tiveram? Lembrará de leves comentários, algumas risadas, mas nada do pleno gozo de lembrar.

          Quis chorar pela infelicidade do passar de seu tempo, perceberá uma ferida tão exposta que até então ignorar era tão gostosa, mas agora nada adiantará, não teria como colocar a sujeira debaixo do tapete, deverá ficar ali, na sua frente até lhe consumir o peito. Não saberá mais como dormir, sua mente não calará a boca de tanto atormentar a alma no passar da noite, não precisará ser três da manhã para saber que estará acordade essa hora.

          Notará pelo desprazer propagado pela propaganda da música que desejava ouvir, o quanto a propaganda parecia seu tempo. Poucos segundos intermináveis no espaço tempo curto do que lhe restará de lembrança. Sofria pela dor do pular o anúncio. Focade nos segundos que não notará a vida passar e do seu registro não salvo. Se lhe fosse possível desligaria a própria mente. Não estaria escrevendo para aliviar o tormento, não haveria de escrever se a estivesse totalmente desligada. Permaneceria de férias por um mês do seu eu-consciência torturante.

          Restará supor que as férias não adiantariam, notará seu cérebro em curto, um motor oscilando, a voltagem baixa, tão semelhante daquelas luzes coloridas que piscam em volta de uma árvore de natal. Não terá presentes nesse enfeite, pois os presentes seriam as lembranças que não cuidou o suficiente para permanecerem consigo. Da luz que acende e apaga deixará tão claro a má manutenção que aquele momento já era temido pelo futuro que servirá como um grande esfregão. Desejava tanto esquecer este sentimento que temerá esquecê-lo se tornando todas as outras coisas que um dia viveu, mas não eram partes de si, pois aquilo que esquecerá era ile, mas deixará de ser. Só saberá quem foi pelas memórias que restavam, assim, temerá esquecer aquele amor, por mais que tenha perdido ou de seus pais e as férias na praia. Temerá tanto esquecer que só lembrará ainda o que não foi esquecido nessa falta de administração do seu tempo.

          Vivera numa potência mínima, onde todo o rascunho do dia, os rabiscos das horas e as anotações dos momentos eram salvos em pastas temporárias e os arquivos salvos deletados quando não se desse mais conta delas, uma grande borracha chamada “tempo” que não só apagava o que viveu, mas o que lhe tornava ile mesme.

          Já não sentirá vontade de chorar. Isto era energia demais e não há mais sentido praticar. A disposição foi embora com o que tentará lembrar.

 

De Emanuel Tuê da Silva Silvano.

Amigues: amigos/amigas.

Acordade: acordado/acordada.

Afogade: afogado/afogada.

ile mesme: ele mesmo/ela mesmo.