O Conto do Tolo

1 - Apresentação

Lá se vai o tolo, sorridente como sempre, nem ousa olhar o chão. Coitade, acabará de tropeçar numa pedra, rindo consigo a possibilidade de ser um aviso. Como eu disse, lá se vai o tolo.

 

Carismátique como ninguém, seguiu à trilhar. Nem se importou com as risadas, os sons delas eram músicas, embora a letra não se escuta e lá se vai o tolo.

Um descontentamento de ser tolo é ser fiel demais. Quando se dá conta, não calça mais sapatos, até isso deu porque até ali ser fiel era algo que o outro também era.

Essa é a vantagem de ter um tolo, confia nos outros.

O ruim de ser o tolo é não ter um sapato depois.

A caminhada de um tolo é sempre sofrida. Termina descalça, nem notará que andou em chão de pedregulhos, de matas espinhosas, asfalto fervente porque amanhecerá. A desvantagem é sempre sentir. Isto mesmo, na pele, na sola do pé.

Lembre-se, não confundir tolo com burro. O burro fica esperando, o tolo ao menos caminha, quando percebe-se só. Calça outro sapato quando retorna, o verdadeiro problema de ser o tolo, afinal, o burro tá lá esperando.

"É que o tolo, pode até ter aprendido, mas basta uma risada para se ver descalço."

2. A morte de um tolo

O pior é querer ser o outro. Esse foi o primeiro tropeço do tolo, quis rir um pouco, do outro e dile. Esse é o problema do tolo.

Querer.

De corpo e alma à atenção do outro. Não parou para pensar na sua graça, queria saber da graça do outro e não se consegue nada disso. O outro tão longe de ser o tolo, mal pensara e se pensara vive como um tolo, porque muitos vivem entre si.

Como toda população há de achar seu estrangeiro, o estranho se acha assim como o tolo. E quem ouviu uma vez falar do tolo, certamente sabe que está descalço. O problema de quem está vivo é não saber o que veste para a morte e não fiquem palmos caso o tolo seja a falta dos sapatos. O tolo perdeu até achar e te resta fazer o mesmo.

Esse não é o único problema do tolo, pois o encontro com a morte todo mortal tem. Se vestir fosse o único problema, o sapato seria de menos, mas o sapato pesa.

Pode pensar estar leve não usando eles, mas é o peso que importa. O peso de tudo vivido tendo uma vida que lhe trouxe também a morte. Não usamos saco enrolado num cordão preso ao pau de madeira, pensando bem... Alguns terão, afinal muitos dos tolos tem outros problemas.

O de não saber o que vestir, o de não saber quando precisa se arrumar, o de pensar que vive e não morre hoje, o de não saber o que é morrer.

3. A vida resumida de um tolo

Se perguntam sobre a vida do tolo, se tanto anda, como não cansou? 


A resposta é simples, o tolo não nota, segurando com tanta força a pulseira da esperança que segue no futuro de uma reconciliação. O tolo espera o retorno do outro, fica dias naquele lugar que o deixaram na esperança de voltarem. 


De ouvir: isso foi só uma brincadeira.


E rir desconfortável por tocarem no terreno mais minado. 


A batalha do tolo é aceitar que não voltam. Saber que deixaram ali descalço porque precisam do sapato. 


Uma coisa que não sabem do tolo é que ile tem muitos sapatos. Perderá muitos a vida toda, mas quem é tolo sabe que sapatos não faltam. Embora seja visto muito descalço voltando para casa. Aquilo é temporário. 


O medo do tolo é na Morte estar descalço, uma característica da sua vida era os sapatos, a sola usada nas suas caminhadas e no final precisar mostrar seu pé todo machucado, é vergonhose vindo daquile que da vida era colecionadore.

Texto de Emanuel Tuê da Silva SIlvano.