O Despertar do  Amanhã

Acordará ainda na madrugada, levantará horas depois. As crianças ainda dormiam e mesmo se acordassem, continuariam na cama. Ninguém levanta cedo num domingo. Pensará cochilar por cinco minutos, percebendo pelo relógio o passar de dois.

 

O tempo funciona desse jeito sem tempo de notá-lo. Se piscar os olhos passará um segundo no ponteiro, mas se começar a contar perceberá o passar dos anos. Encherá uma xícara de café, a vontade de tomar não estimula o corpo, mas tomará por hábito. Sentará naquela cadeira manchada pelo tempo, não sendo tão diferente de quem está sentado nela, o tempo também depositará manchas na pele, algumas cicatrizes e a velhice.

 

Essa última lutará contra ao se olhar no espelho, perderá a batalha analisando antigas fotografias enquanto o café esfria.

 

Verá a foto da caminhada de duas horas até o bar da cidade vizinha para comemorar com os velhos amigos que na foto ainda eram novos. Recordará do LSD que usou para comemorar seus trinta anos e como o vestido florido da Anastásia parecia estar vivo, as flores estavam tão vivas como todos naquele dia. Sentirá falta de Anastásia.

 

Pensará no velório de dois anos atrás, a sopa de abobrinha como pedido para aquele dia. De todas as comidas, sopa de abobrinha era a sua favorita e isso era tão Anastásia de ser que se fosse outra coisa não seria ela.

 

Sentirá também um cheiro diferente vindo de fora da casa, a filha do vizinho, de dezessete anos, acabará de acender um baseado no quintal.

 

“Bom dia.” Acena para a moça, pobre coitada que se assustará jogando no chão o baseado ainda acesso.

 

Quando notará quem foi que a cumprimentou, voltará a procurar o baseado perdido enquanto dizia:

 

“Bom dia, Dona Ana! Vai um trago?” 

 

Pensará em recusar por causa das crianças, procurará o relógio pendurado na parede, os ponteiros indicavam sete da manhã. As crianças foram dormir depois das duas, certamente não ousariam levantar da cama uma hora dessas. Assim, aceitou o convite e deixou as fotografias na mesa.

 

Já ao lado de Carla, sentará no gramado, pensará o que atormentava a alma daquela jovem. O que transformava aquele fogo do baseado em algo tão pulsante visto naqueles olhos entristecidos e o sorriso desanimado. Pulsava-se pelo o quê?

 

Lembrará de seu antigo grupo no trilho ferroviário da cidade, queimando um e pensando como seriam no futuro. Concluirá não ser o que pensou um dia, recordará de Pedro e Arnaldo, a dupla conspiração, sempre falando das estatísticas e rotas de solução. Naquele tempo o Brasil mais matava LGBTQIA+ no mundo e lembrava da dor de um deles virar estatística. O outro, Pedro, viu a última vez no mesmo velório e ainda chora por Arnaldo. 

 

Aquilo doeu em seu peito, o fogo dos jovens queima, perguntará o que a atormenta para fugir da dor de um coração cheio de lembranças inalcançáveis. A resposta ouvida foi qual faculdade cursar.

 

A Faculdade, sua antiga Hidra, cortará tantas vezes que a vê como uma floresta de cabeças gritantes. Demorou para dominar, na realidade não sentirá ter posto as coleiras, afinal como colocar quando se há mais cabeças do que se pode contar. Na bagagem de sua vida cortará as cabeças da publicidade, crescerá as artes visuais, arquitetura cortando logo em seguida e outras quatro cresceram. Perdeu-se em tantas que cursou que nunca encontrou algo que pudesse se prender. 

 

Ouvirá as frustrações da jovem, as duas seguiram seus rumos no fim do baseado, o seu destino era retornar para a casa. Entrará para dentro, guardará as fotos e sentará no sofá. Ligará a televisão para ver o jornal, dali não levantaria tão cedo. Fechará os olhos e virá Marcelo. Sentado ao seu lado, procurará através do tato a sua mão, encontrando somente o controle e afagou como se fosse.

 

Sentirá sono, deitará naquele pequeno sofá até dar-se conta do seu acomodo dos dias dando o agora à pensar nile. Fará três anos em agosto, quarenta de casamento em setembro, cinquenta e sete de namoro dia 13 de dezembro e sessenta e um desde a primeira vez que o virá em janeiro.

 

Jovens.

 

O nada capaz de impedi-los, hoje, há uma lacuna. O veria em breve novamente e isto o que sustentava seus dias, acomodou-se na espera. No café de domingo, nos passeios de sábado, nas ocupações da semana, notará estar tão morta como ile.

 

Quando abriu os olhos, estava decidida numa certeza, dos gritos vindo do andar de cima que a vida era uma criança acordando querendo ver desenho animado no café e sua vida precisava de mais um curso.

De Emanuel Tuê da Silva Silvano.

ile/dile: ele/dele, ela/dela

Tu: alma

Taha: significa consciência, saber, estado (ñ territorial, mental/psíquico).

Tahatu: despertar, acordar, perceber, ter consciência.

U: sobro da vida, abrir os pulmões, nascimento.

Fa: alivio, recomeço, vitória.

Ufa: amanhã, futuro, vida que segue.