O dia seguinte

Neste dia dobrará na rua Fernando Pessoa, decidirá ainda no trabalho que não voltaria para casa, tomaria um caminho desconhecido, sentaria na calçada quando a vontade de sentar surgisse. Este era o plano de uma pessoa sem planos, o motivo era o desconforto de sua casa, por mais que adorasse aquele lugar. Absurdo seria chamar de lar.

 

Comprará um fardo de cerveja no mercadinho do seu Cartola, além de um maço de cigarro e chiclete sabor menta. Colocará Maria Bethânia para tocar no topo do morro, recitou poemas de Carlos Drummond, mijará no poste de luz.

 

Observando sua bicicleta, pensará em pedalar até suas pernas não aguentarem e desistirá pelo cansaço de ter que voltar. Sua vontade de recomeçar a vida beirava a esquina, mais ainda teria o mesmo endereço, o mesmo nome e aquela conta para pagar até o dia dezoito.

 

Jogará um pouco de cerveja no chão pro Santo, conversou com as pessoas que um dia conheceu, mas não pôde falar o que sentia e agora se pegará falando sem sua presença, ôh se choras.

 

O desejo de mudar o passado é a ferramenta do ressentimento, nada mais pode ser feito. Não há palavra que conserte, não há outra rota senão esta que se encontra.

 

Beberá a sétima cerveja, mijará pela segunda vez no poste, vomitará antes de sentar. Outro cigarro, o último da noite ou daquela hora. Já não usava mais a camisa. O celular acabará a bateria, restará somente seus pensamentos.

 

Lembrará de Joelma, dos seus beijos mornos, promessas de um futuro e a aprovação da faculdade em outro estado. A mensagem de sua mãe sobre a ida ao mercado e o telefonema do seu acidente de carro. Recordará as unhas sujas de terra e o buraco que fará para enterrar o Sorridente, seu cão.

 

Não quer voltar para casa hoje, mas o amanhã obriga voltar, o ponto do trabalho lhe espera, a moça da padaria lhe espera para quitar a dívida. Assim, procurará pensar no agora sem previsão do dia seguinte, nada lhe espera pois nada é esperado de quem não espera.

 

Jogará uma pedra que rolou até a metade do morro, a segunda usou mais força. A terceira desistirá de jogar. Beberá mais uma latinha, mastigará o chiclete e colocará o pé no pedal da bicicleta.

 

Escalará um pouco mais naquele morro, montará na bicicleta, respirará fundo e descerá.

 

A velocidade lhe empurrou ladeira à baixo, o guidão tremia como alguém em abstinência, o freio não funcionará, seguirá reto olhando para os lados tentando avistar algum carro e sem as luzes do farol, pensará no clarão se o destino proporcionasse, mas o que se via pela frente era uma rua sem saída. 

 

Virá um poste como aquele que mijará, uma casa que se fosse a dele não procuraria entrar e um muro de tijolos.

 

Se continuasse reto chocaria com a porta de entrada na qual não foi convidado a entrar, como também não desejava receber um pedido, se virasse para a esquerda abraçaria o poste como quem abraça forte aquele amor que foi embora. Se virasse para a direita, chocaria no muro como dois carros com seus faróis acessos e a única certeza diante de sua cegueira, a colisão.

 

Do muro, não existirá mais bicicleta, seu tênis voará em direção ao céu, rolará como uma bola chutada por um moleque que tenta fazer um gol.

 

Permanecerá deitado não por ser incapaz de levantar, o chão fazia tão parte dele que poupará esforços para negar. Observando as estrelas, do chão foi acolhido como um abraço que sentirá falta de sua mãe, do chuvisco que começará, as lambidas de Sorridente. Do sono vindo de longe aquele beijo morno de boa noite da Joelma.

 

Encontrou seu tênis quando o sol suplicava seu levantar, notará voltando para casa que tudo melhora depois de acordar. A vida é uma batalha de pausas e neste momento começa uma nova para enfrentar. Pensará o quanto é mais leve ver que o ontem já passou.

 

De Emanuel Tuê da Silva Silvano.