Seus olhos

Nos seus olhos eu me vi, na miniatura que sou, do tamanha de um grão a espera de se transformar poeira. Quando eu me vi gelei, admirei com espanto o reflexo dado a mim. Seria eu uma miragem? Refletide numa cópia inexistente? Estava eu nos seus olhos, próxime o suficiente para me reconhecer, mas dele eu não existia. Se tocasse causaria dor, te obrigaria a fechar não vendo mais nada e do nada eu teria toda forma possível, poderia brincar de ser homem e mulher, humano civilizado aqui ou humano civilizado lá, poderia ser um alienígena ou uma planta. Quem sabe seria tudo isto e mais um amaranhado de coisas que você não compreenderia, mas sua imaginação permite.

Da sua forma humana, te vi como Medusa, de petrificar minha alma, fazendo me ver eternamente. Naquele momento eu entendi o porquê eu me via, o porquê não adiantaria mover.

 

Eu não estava em ti, tão longe estive quando te penetrei naquela manhã ao acordarmos. Eu não estava em ti, nunca estive, sou eu que fujo do meu reflexo como tu foge do seu, então eu entendi, não queremos sermos vistos, pois o que somos não tem forma e parado ali sem esforço algum depois de gozarmos me via minúscule, menor que o próprio átomo, indivisível, um amaranhado de descrições da clareza do que somos e eu não era humano, era terráqueo, eu não era humano, era espécie, eu não era humano, pois humano era só um adjetivo de um tipo de vida, de um planeta específico e tão pouco era eu. Porque eu estava no seu olhar, achava ver e não via nada de mim, por isso o medo do espelho. Quando vejo minha forma, já não sei quem sou.

Refletide: refletida/refletido.

Próxime: próxima/próximo.

Minúscule: minúscula/minusculo.

Texto de Emanuel Tuê da Silva SIlvano.